31 de março de 2015

Miu Miu investe em novas formas de divulgação

A alta costura sempre rende ao mundo da moda mais do que inspiração de roupas e estilo. Ela também apresenta novas tendências nos meios e canais de comunicação. Já mostrei alguns exemplos aqui no Moda 2.0, quando falei dos desfiles ultra modernos da Burberry, dos luxuosos desfiles da Dior e do flerte da Prada com o cinema.

E é justamente de cinema que venho comentar agora neste post. Na verdade, parece ser uma continuação do trabalho da Prada, só que com a sua marca mais cool, a Miu Miu. A marca lançou uma campanha chamada Women's Tales onde produz uma série de vídeos sobre o universo feminino pela visão de diretoras de todo o mundo. O primeiro vídeo teve um público perto dos 10 mil e os atuais estão conseguindo um público próximo dos 2 milhões de visualizações, prova do sucesso deste projeto.

O legal é que os figurinos são todos com a coleção atual da Miu Miu e percebemos que é uma forma muito interessante de mostrar o produto. O bom gosto e a qualidade da direção são impecáveis e dá todo um clima incrível aos produtos também incríveis da Miu Miu. Um show de bom gosto!

O primeiro filme é o The Powder Room, uma visão bem interessante do momento pré, onde as mulheres se arrumam para qualquer evento. Um filme bem conceitual, mas interessante:



Agora o que mais chamou a minha atenção foi o oitavo filme. Isso porque ele está ligado a um projeto muito legal: o SOMEBODY. De autoria da Miranda July, uma atriz, diretora, artista multimídia que fez alguns filmes super cool, como o "Eu, Você e Todos Nós" e que, na minha opinião, sempre tenta passar uma imagem interessante, uma visão bem particular do mundo contemporâneo.

Tela de abertura do site


Da parceria dela com a Miu Miu para fazer o filme, surgiu o projeto SOMEBODY que é um APP de relacionamento onde você usa pessoas estranhas para passar mensagens que você não pode passar, por estar longe, ou porque não tem coragem de fazer pessoalmente. Ou simplesmente porque não quer.

A lógica do APP é bem simples: você se cadastra e a pessoa para a qual deseja passar a mensagem também deve estar cadastrada. Aí você seleciona a pessoa para quem quer passar a mensagem e o APP mostra as pessoas que estão mais perto dela. Você vê os perfis e as notas que os outros usuários deram para a pessoa (avaliando a forma como ela entregou a mensagem) e escolhe alguém para repassar a mensagem. O ideal é que a pessoa tente passar a mensagem com emoção. Uma mistura muito maluca de virtual e real, humano e máquina, tudo junto, misturado de uma forma estranha, mas real. Uma percepção de como pode ser nossa vida num futuro próximo.

O vídeo que ela fez para o Women's Tales da Miu Miu é incrível e mostra como seria o funcionamento ideal do APP.

É ainda um projeto conceitual e que, para dar certo, precisa de um grande número de usuários cadastrados. A aposta do aplicativo é que todos se cadastrem por meio de divulgação entre seus amigos e na criação de hot spots virtuais, alavancando o uso do aplicativo. Até o próprio aplicativo está sendo remodulado pois tiveram alguns problemas na versão teste do programa. De qualquer forma é uma ideia e um conceito interessante e pode ser interessante se pegar. É esperar para ver.

De qualquer forma, vale muito a pena assistir ao vídeo. Ele é fofo e engraçado ao mesmo tempo. Infelizmente não achei uma versão legendada em português:






5 de março de 2015

Performances que emocionam

Neste meio período sabático que tirei aqui do blog, passei por assuntos que achei interessante e que gostaria de ter escrito sobre eles. Com o tempo, a vontade de falar de quase todos eles foi passando, mas tem dois assuntos que realmente curti. Nenhum deles é novidade e, na verdade, só gostaria de registrá-los aqui no blog.

Para a minha surpresa, o primeiro deles fala sobre Marina Abramovic e ela terá uma exposição no fim do mês em São Paulo. Então, nem é tão random assim :)

O primeiro é um vídeo que ficou super famoso na internet (já tem quase 10 milhões de visualizações) mas que eu não conhecia e fiquei super emocionado quando soube da história. É sobre a artista Marina Abramovic. O MoMa fez uma retrospectiva de sua carreira, com todas as suas obras em 2010 e, ao final da exposição, tinha uma performance chamada "A artista está presente" onde ela ficava por horas no museu, sentada quieta e uma pessoa por vez sentava à sua frente por alguns segundos.

Esta obra, na verdade, é uma releitura de uma performance que ela fez no início de sua carreira, com o artista plástico Ulay. Com ele, Marina viveu por 12 anos seguidos, num misto de carreira, amor e loucura. Eles viviam como nômades, dentro de um carro por 5 anos e depois mudando de cidade em cidade. Enquanto isto, faziam performances bem interessantes e que ficaram super conhecidas no mundo da arte.

A performance "A artista está presente" é uma releitura de uma performance que eles fizeram no final dos anos 70, onde um ficava em frente ao outro, em silêncio, sem se mexer, sem falar, sem comer. Jejuando mesmo. Fizeram isto por 90 dias não consecutivos.

Outra obra super interessante que eles fizeram foi a Grande Caminhada, onde cada um começou a andar em um lado da Muralha da China e se encontraram no meio do caminho. Os dois, percorrendo uma distância enorme ao encontro do outro. Era para ser uma performance super romântica, com uma mensagem super positiva mas o processo de aprovação com o governo chinês demorou 8 anos e só foi liberado em 1988. Durante todo este tempo, a relação dos dois foi se desgastando e, pouco antes de iniciar a performance do muro da China, eles começaram a dormir com outras pessoas, indicando o fim do relacionamento.

Ao chegar no meio do caminho (cada um percorreu a pé 2.500km, andando por quase 90 dias) Ulay conta a Marina que a intérprete chinesa que eles contrataram para executar a performance estava grávida dele e não sabe o que fazer. Ela resolve, então, que o encontro no meio do caminho é, na verdade, uma despedida. Eles combinam de nunca mais se verem, e seguirem suas vidas separadamente. E foi realmente o que aconteceu. O ano era 1988.

Eles só se reencontraram no dia da abertura da exposição do MoMa em 2010 (22 anos depois). O vídeo que ficou famoso é o que mostra quando ele aparece de surpresa e senta na frente dela, durante a performance. É um momento lindo! Dá para ver bem a expressão de surpresa dela e de amor na cara deles. Veja (ou reveja, vale a pena!):




Eu achava que ela não o tinha visto nunca mais mas, na verdade, eles se viram na manhã do dia de abertura, antes da performance começar. Mas ela não sabia que ele iria aparecer na performance, o que explica a parte de surpresa. E a emoção de ambos é mais que compreensível, afinal, foi naquele dia que eles se reviram depois de tanto tempo. E a história deles é bem bonita e particular. Encontrei este vídeo que conta em detalhe toda esta história de amor. O vídeo é um pouquinho longo (são cerca de 25 minutos) mas vale muito a pena ver pois conta sobre a relação deles e mostra os principais trabalhos que realizaram juntos, todos bem legais.



Que bom saber que a vida também pode ser feita de romance e amor, daqueles que só imaginamos em livros! Amei conhecer esta história :)

Agora o segundo ponto que eu queria colocar aqui no blog é sobre a Sia. Quando ouvi a música Chandelier, achei que fosse mais uma música pop bobinha que fica na cabeça. Mas, prestando atenção à letra, percebi que ela não tem nada de bobinha. Coloquei parte da letra aqui:

" (...) Sun is up, I'm a mess
Gotta get out now, gotta run from this
Here comes the shame, here comes the shame

1, 2, 3 1, 2, 3 drink
 I'm gonna swing from the chandelier, from the chandelier
I'm gonna live like tomorrow doesn't exist
I'm gonna fly like a bird through the night
Feel my tears as they dry

And I'm holding on for dear life
Won't look down, won't open my eyes
Keep my glass full until morning light
'Cause I'm just holding on for tonight (...)"

Mas o que me deixou passado mesmo foi quando eu vi o clipe. Ele é simplesmente incrível! Há muito tempo eu não via um vídeo com uma linguagem artística tão forte:



É emocionante ver a dança tão bem explorada como forma de arte. Eu fiquei realmente tocado assistindo ao clipe. A coreografia é perfeita e a dançarina é mais que perfeita. E o que é mais surpreendente de tudo: ela tem 12 anos. Isso mesmo, 12 anos!

Ela se chama Maddie Ziegler e começou a dançar aos 2 anos (tipo, oi?!!!). Foi descoberta em um reality show bem trash, chamado Dancing Moms, e tem uma expressão corporal de deixar qualquer um passado! Tanto que a Sia apostou novamente nela para o clipe de Elastic Heart:



Tanto a música como o clipe são novamente fora de série! Desta vez ela contracena com o Shia LaBoeuf que é super lindo e está absolutamente tudo no clip. De tão forte que é a interpretação dos dois, o vídeo até incomoda um pouco.

Vale a pena prestar atenção na letra para entender a lógica da coreografia (que é novamente perfeita). Coloquei uma parte da letra aqui no post:

"And another one bites the dust
Oh why can I not conquer love?
And I might have thought that we were one
Wanted to fight this war without weapons

And I wanted it, I wanted it bad
But there were so many red flags
Now another one bites the dust
Yeah, let's be clear, I'll trust no one

You did not break me
I'm still fighting for peace

Well, I've got thick skin and an elastic heart,
But your blade—it might be too sharp
I'm like a rubber band until you pull too hard,
I may snap and I move fast
But you won't see me fall apart
'Cause I've got an elastic heart (...)"

Engraçado que, de uma forma, os dois assuntos têm a ver com performance artística. Acho que quando são bem feitas, conceituadas, elas se tornam realmente bem especiais :)


2 de março de 2015

O esforço da GAP em limpar o seu rastro no mercado

Como qualquer pessoa que foi adolescente nos anos 90, eu sempre conheci e curti a GAP mas acho que ela foi perdendo a mão desde que grandes redes de fast fashion como UNIQLO e ZARA ganharam o mundo, conquistando o mercado com um produto mais interessante e globalizado.

Mas devo confessar que sempre passo nas lojas quando viajo. Isto porque encontro peças interessantes a preços ótimos em peças básicas com um toque mais cool e fashion (super amo a coleção LIVEDIN ;) ).

Mas resolvi escrever sobre a GAP pois descobri uma coisa muito interessante sobre a empresa. Desde 2007 eles vêm investindo em projetos que visam melhorar a vida das pessoas que trabalham nas fábricas que produzem as suas roupas. O projeto principal deles se chama PACE e é focado na mulher destes países que, muitas vezes, são culturalmente discriminadas e estão em uma realidade onde encontrar uma vida melhor parece um sonho distante.

Participantes do programa P.A.C.E


O PACE (Personal Advance & Career Enhancement - avanço pessoal e melhoria na carreira) oferece às mulheres que trabalham nas fábricas de roupas fornecedoras da GAP módulos de treinamento que as ajudam a entender melhor o seu potencial como mulher e como trabalhadora, aprendendo como se comunicar melhor, planejar sua vida, sua carreira e seu dinheiro. Ao todo são 9 módulos de treinamento: Comunicação, Resolução de Problemas e Conflitos, Educação Financeira, Educação Funcional, Gerenciamento do Tempo, Excelência em Execução, Direitos Trabalhistas, Saúde e Reprodução e Papéis dos Gêneros no dia a dia.

Parecem assuntos simples mas vale lembrar que estes treinamentos são oferecidos às mulheres que moram na Índia, Cambodja, China, Indonesia e Sri Lanka (países "Made In" da maioria das roupas do fast fashion), lugares onde a maioria das mulheres tem acesso super restrito à educação e, devido à pressão social, não sabem se posicionar e se valorizar como ser humano na sociedade. O vídeo abaixo conta como o programa impacta a rotina de uma mulher participante do programa:



O ICRW (International Center for Research on Women) estudou o impacto do programa nestes países e relatou melhoria significativa na auto-estima, eficiência pessoal e no trabalho e influência no trabalho em todos os países onde o PACE foi realizado. Coisas simples como aprender a guardar dinheiro para morar em uma casa melhor, comunicar as suas dificuldades e dúvidas para a empresa onde trabalha e até pedir ao marido para dividir as tarefas de casa são ganhos relatados pelas participantes do programa que, com as informações que tiveram no treinamento, ganharam a segurança para realizar estas mudanças em sua vida. Ao todo, mais de 25 mil mulheres já participaram do programa. E o número tende a aumentar.



Além disto, no final do ano passado a GAP lançou um novo programa chamado TAU com o objetivo de proporcionar uma cadeia de suprimentos de roupas mais sustentável. A ideia é investir em empresas que possam crescer de forma sustentável e produzir com preços atrativos, respeitando o meio-ambiente e as pessoas. O projeto ainda está no início mas pode realmente ser um sucesso, se conseguir equalizar o investimento no crescimento de empresas sérias no setor com o tratamento de questões socio ambientais que precisam, urgentemente, ser tratadas nos países onde estas empresas estão inseridas. O diagrama abaixo apresenta a filosofia desta nova empreitada da GAP:

Como a própria filosofia da TAU destaca, é uma mudança inevitável e muitos críticos podem dizer que a GAP "não está fazendo mais do que a própria obrigação" e, uns mais ácidos ainda, dirão que "eles estão fazendo Marketing em cima de ações que são obrigatórias para resolver os problemas necessários para manter a sua cadeia de suprimentos de baixo custo e evitarem partir para uma solução de fornecimento mais custosa do que a que têm hoje" mas prefiro enxergar como uma ação proativa da empresa que traz para hoje um problema futuro e, com isto, espera construir um futuro melhor onde estes pontos terão um melhor tratamento.

Além disto, estes problemas que a GAP está tratando com estes projetos são comuns a todas as redes de grande varejo em todo o mundo (basta olhar o MADE IN das roupas e ver o impacto que estes países têm na nossa vida) e achei bem interessante ver que a GAP já está tratando destas questões. É importante que o primeiro passo seja dado por um líder de mercado como eles. E é um sinal de que eles estão mais preparados do que eu esperava para ser o líder do varejo de roupas.

Mudanças na cadeia produtiva têxtil são realmente inevitáveis e projetos como este deverão surgir em todo o mundo num futuro próximo. Resta saber quem será que vai iniciar estes passos no Brasil? Será que teremos que esperar a GAP agir por aqui também? Espero que não!