26 de agosto de 2013

Kafka, Hannah e Joshua

Li e assisti três obras ótimas recentemente e queria escrever sobre elas aqui no blog. Mas não queria fazer uma espécie de crítica. Queria, na verdade, falar sobre o que entendi e senti de cada uma delas. E a melhor forma de fazer isto seria colocá-las num contexto mais amplo. Aí pensei, pensei, pensei e resolvi que a melhor forma seria encontrar um link entre elas e montar um texto único. E é o que estou tentando fazer aqui. Espero que gostem :)

Bom, primeiro vou falar sobre "O Processo" do Kafka. É bom começar falando que acho Kafka o máximo! Eu tinha a impressão (como percebo que a maioria das pessoas também tem) de que os seus textos eram filosóficos, intelectualizados demais. Mas, quando comecei a ler alguns contos (inclusive o mega famoso "A Metamorfose") percebi que, na verdade, é super fácil ler e acompanhar a história. Sim, elas são profundas e rendem uma série de conclusões e debates. Mas também são fáceis de ler e entender. E os questionamentos que trazem são interessantes, ricos e, principalmente, atuais. E, neste sentido, acho que "O Processo" é a melhor obra que li dele até então.



Um dia, sem mais nem menos, Josef K., um homem de 30 anos, bem sucedido em uma carreira em ascensão, é acordado pela polícia, avisado que está sendo processado. Quando é levado ao juiz, ele o avisa sobre o processo e diz que ele deverá preparar a sua defesa. Josef procura de todos os modos descobrir o motivo pelo qual está sendo processado e isto não lhe é dito em nenhum momento. Dá até um pouco de angústia no começo do livro, pois a personagem passa mesmo um sentimento de aflição e revolta contra esta posição. Mas quando ele resolve se armar e se defender mesmo assim, e começa a correr atrás de uma solução para um problema que ele sequer sabe qual é, percebi que Kafka quis falar mesmo é desta burocracia moderna que a vida das pessoas tende a se transformar.

Josef era um homem bem sucedido que vinha seguindo uma carreira previamente planejada, onde tudo acontecia conforme o esperado. Acredito que o fato de Kafka ter colocado um aviso de que ele seria julgado em breve e de ter usado como exemplo toda a burocracia formal de um processo jurídico, ele quis simbolizar a falta de atenção e sentido nas vidas das pessoas que, sem perceber, acabam cumprindo um papel automático, passando etapas, terminando fases, seguindo um caminho reto que mal sabem onde vai dar.

Desta forma, no começo, Josef tenta encontrar o sentido do que está fazendo e por isto se revolta. Depois, se conforma e resolve seguir as leis e responder ao processo (e, sem perceber, volta a seguir um caminho ditado por outros, sem sentido para si). Aí ele luta contra toda a burocracia (esta parte é demonstrada em diálogos interessantíssimos dele com o seu advogado de defesa e com um padre numa igreja) mas , depois de algum tempo, Josef sucumbe e se rende entregando, literalmente, a sua vida. Sei que o final do livro parece um pouco dramático e deprê mas achei razoável e inteligente. E não consigo imaginar um final melhor.

Kafka mostrou, então, não só que Josef vivia numa vida sem sentido, cumprindo um papel que não tinha nenhum significado para ele, como também que, ao ser questionado e pressionado a encontrar uma solução, saindo do modelo de vida que sempre seguiu, uma vida burocrática, racional e lógica, ele não consegue sair do labirinto que construiu para si mesmo. E desiste. Como se vê, uma questão ampla, complexa e, sobretudo, moderna.


Olha que legal: achei um link no You Tube com o filme feito por Orson Welles em 1962. E legendado em português! Vou assistir depois:



Este ponto sobre cumprir uma vida sem muito sentido, finalizando etapas, seguindo regras externas, sem questionar é o que liga com o segundo assunto deste post, o filme Hannah Arendt. Eu confesso que não sabia nada sobre a história dela ou do seu texto polêmico sobre o julgamento de Eichmann pós Holocausto. Mas fiquei impressionado e intrigado pelo assunto quando vi o filme. O filme é ótimo, biográfico e apresenta de forma linear toda a história. A atriz principal é boa (não é ótima, acho que um papel tão forte merecia uma interpretação mais marcante) e a produção tem alguns atores bem amadores o que desconcentra e irrita um pouco. Mas o conteúdo é tão interessante que todos estes problemas ficam em segundo plano.




Ao se candidatar a escrever sobre o julgamento para a The New Yorker, Hannah quis acompanhar de perto este momento histórico para tentar entender para si mesma o que leva o homem ao extremo do mal. Não sei se foi assim que aconteceu na vida real (mas no filme foi mostrado assim), mas achei genial quando ela chega à conclusão principal do seu texto ao ver Eichmann dizer que se sentia "fritando como um bife" naquele julgamento. Uma expressão extremamente comum que poderia ter sido dito por qualquer pessoa. Aí ela percebeu que a maldade mais extrema pode ser cometida pela mais comum das pessoas. E é a base do texto que ela escreve para a The New Yorker.

Ela cria uma teoria que mostra que o homem comum, aquele que segue ordens que lhe são passadas, é capaz de cumprir qualquer tarefa, sem distinguir o bem do mal. Que este homem acredita estar certo ao cumprir o que lhe é passado como obrigação e, ao fazer isto, faz o bem, pois faz o que é esperado dele. Mesmo que isto seja da maior crueldade possível.

Ao criar esta teoria, ela, de uma forma indireta, inocenta Eichmann pois afirma que ele fez o que fez simplesmente por não se questionar e só cumprir ordens. Isto, aliado com a discussão que ela cria sobre a possibilidade dos próprios judeus terem sido cúmplices ao cumprir tarefas que lhes eram passadas sem se questionarem se eram boas ou más, fez com que toda a comunidade judaica passasse a atacar o texto e a própria Hannah.

Este ponto de vista é interessantíssimo pois mostra como o mal pode ser algo extremamente banal. E que pode ser feito por qualquer um, basta cumprir ordens sem questionar. Alguém como Josef K. que segue uma vida programada, sem se preocupar com o sentido que aquilo realmente tem para ele. Alguém que segue uma vida burocrática moderna, trabalhando 40 horas por semana, cumprindo metas, fechando ciclos. Qualquer um. Para o bem ou para o mal.

A solução, segundo Hannah, é a vigilância constante dos seus atos, dos seus passos. Saber o que está fazendo, para quê, para quem. Afinal, o trabalho que se cumpre, traz qual retorno para você? E para quem mais? Para qual fim?

Sei que parece um pouco filosófico demais mas fiquei muito impressionado com o filme. Inteligentíssimo. E, ao mostrar esta discussão complexa de uma maneira tão clara, fez com que eu gostasse muito do filme. E passei a indicar a todos que conheço. Vale muito a pena ver.

Este questionamento é a ligação para o terceiro e último assunto deste post: o livro "Moonwalking with Einstein" de Joshua Foster. No Brasil o livro ganhou o título sem graça de "A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo". Mas só o título é sem graça. O livro é muito bom.

Primeiro, é uma história verídica escrita em um texto jornalístico, muito fácil de ler. Joshua foi cobrir um campeonato de memória e ficou apaixonado pelo assunto. Conversando com um dos principais atletas, ele foi convidado a aprender técnicas de memorização para participar do campeonato no ano seguinte. Curioso, resolveu aceitar. E passou a pesquisar tudo sobre o assunto. O livro é um registro de tudo o que ele descobriu. E foi muita coisa...



Primeiro ele conta sobre as pesquisas científicas sobre memorização e sobre a história da memorização no mundo. Ambos temas são interessantíssimos e é uma delícia ler sobre eles. Depois ele fala sobre as técnicas de memorização que ele aprende e o desenrolar do seu treinamento e do campeonato que ele participa. Esta parte é um pouco menos interessante mas está muito bem escrita, o que torna muito fácil e gostoso ler até o final.

Mas o que mais valeu em todo o livro é o que ele tira das pesquisas científicas e, de uma forma incrível, traduz para o dia a dia. Duas conclusões muito legais que podemos adaptar facilmente às nossas vidas. A primeira é um pouco mais técnica mas é bem interessante:  quando queremos aperfeiçoar algo ao máximo em nossas vidas, temos que sair sempre da zona de conforto. Isto funciona mais ou menos assim:  quando começamos a praticar um esporte e somos muito ruins e, depois de muito treino, melhoramos muito e atingimos um desempenho bom, tendemos a aceitar este desempenho bom e fica difícil melhorar depois disto. É que o cérebro sabe que o resultado que atingimos é bom e ele se satisfaz com isto. Para resolver isto, devemos forçar o cérebro a achar este resultado novo ruim e estabelecer novos parâmetros. Para isto precisamos focar em melhorar os detalhes e estabelecer metas agressivas para mudar o padrão do cérebro.

A segunda dica é mais ampla mas um ótimo ensinamento. Ele diz que o cérebro marca a passagem do tempo pelas memórias novas que criamos. Por isto, quando somos crianças, aprendemos e vivenciamos coisas novas a todo momento. E o tempo parece passar devagar. E, depois, quando envelhecemos, parece passar rápido pois temos poucas novidades em nossa vida. Assim, viver uma vida automática, repetida, faz a percepção do tempo voar, sem percebermos direito. É fácil presumir, por exemplo, que antes de entrar em todo o stress do julgamento, a vida deve ter "voado" para Josef K. e que, para o bem ou para o mal, o próprio processo se tornou um novo marco na sua vida e fez com que ele passasse a vivenciá-la de uma maneira diferente.

Assim, Kafka, Hannah e Joshua concordam quando mostram a importância de questionarmos e agirmos ativamente no rumo que a vida segue, questionando e estando atento, presente, percebendo o que está acontecendo, quem estamos ajudando e para onde estamos indo. Uma questão muito contemporânea e relevante!

Ufa, foi difícil explicar a ligação que enxerguei nas três obras mas espero ter conseguido fazer sentido. E que tenham gostado :)

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