14 de março de 2013

Um blog sobre cartas ...


Olha que legal este blog que descobri hoje! Ele apresenta “cartas memoráveis” escritas em diversos tempos e estados de espírito por pessoas (personalidades ou não) do mundo real. Não, aqui não valem cartas fictícias de personagens. Todas as histórias e todos os sentimentos são reais. Cada carta é um post e contém a imagem da carta original (a maior parte foi escrita à mão). Para cada uma, o blog traz um texto contextualizando o momento e a situação em que a carta foi escrita e uma transcrição completa do texto (algo super necessário, afinal, nem sempre é fácil entender a letra das pessoas).

A primeira carta que li é a famosa carta de suicídio da Virginia Woolf. Lindíssima! Fiquei até emocionado em ver a imagem da carta original, escrita á mão, em uma letra conturbada e de difícil compreensão. Já falei sobre esta carta aqui no blog, quando falei do filme “As Horas”.

Imagem da carta de suicídio de Virginia Woolf


No blog descobri outras histórias igualmente interessantes, como a que o ex-escravo Jourdon Anderson ditou e enviou para o seu antigo “dono” Coronel P H Anderson. Logo após o fim da escravidão, esperando encontrar o seu antigo escravo na miséria e em difíceis condições de sobrevivência, o coronel escreveu uma carta ao seu antigo escravo pedindo que voltasse a trabalhar em sua fazenda, agora como homem livre.

A realidade de Jourdan, contudo, era bem diferente da que o tal coronel esperava. Ele estava empregado e com um salário digno o suficiente para sustentar a casa e oferecer educação para os seus filhos. A carta de resposta que Jourdon escreveu ao patrão é simplesmente brilhante! De maneira humilde, conta sobre as boas condições que vive atualmente e em como se sentiria bem em rever algumas pessoas da casa onde ele e a mulher trabalharam como escravos por mais de 20 anos. Ele, então, se mostra surpreso com o interesse do seu “antigo dono” (a carta se chama “To my old master”) e diz que consideraria voltar sim, se ele se comprometesse a oferecer provas de sinceridade das suas intenções.

Foto de escravos americanos


A partir daí ele começa listando todos os maus que sofreu enquanto esteve sob seu domínio. E a descrição é feita de uma maneira sincera e direta. Primeiro, ele fala que para acreditar na “sinceridade” dos bons atos, pede que o coronel envie o pagamento de todos os anos que ele e a mulher trabalharam para a família (sim, ele somou os valores e apresentou a conta!). Depois ele pede que ele dê a sua palavra de que nada de mal iria acontecer às suas filhas mais novas, já que as mais velhas tinham sido violentadas pelos filhos do tal coronel e ver isto acontecer de novo é algo que ele não conseguiria aceitar. E ele termina a carta pedindo que mande lembranças a um outro funcionário que fez com que o coronel parasse de atirar nele enquanto ele ainda era escravo e que, se não fosse por ele, provavelmente não estaria vivo. Uma resposta muito bem dada.  O texto original da carta é realmente tocante e, quem puder, leia o original aqui.  

Outra carta surpreendente que li foi a do escritor Charles Bukowski para o editor John Martin que em 1969 ofereceu ao então aspirante a escritor e funcionário dos Correios um salário mensal e vitalício de 100 dólares para que ele largasse o seu emprego e dedicasse a sua vida a escrever. Na carta de agradecimento escrita anos mais tarde, Charles agradece John por ter oferecido a ele esta oportunidade que libertou a sua alma. No texto, Bukowski descreve como se sentia preso e sufocado na rotina do trabalho sem fim, com pouco reconhecimento e sem sentido que praticamente esvaziava a sua vida e a de todos que são obrigados pela vida a se submeter ao que ele chama de “nova forma de escravidão, que deixou de ser somente com os negros e passou para todas as etnias”. O texto é muito interessante e nos faz pensar sobre a nossa vida moderna. Vale a leitura!

Charles Bukowski


Uma carta divertida que eu li foi a resposta do vocalista do Green Day a uma carta de uma mãe (daquelas típicas mães moralistas, meio patéticas e que acham que sabem tudo) que eles receberam censurando-os por criar uma música tão pessimista e pra baixo. Ela inclusive enviou a fita de volta para eles, falando que o produto não era digno de ser consumido por ela ou por sua família. Termina falando que o que eles fazem não é arte e que ele devia pensar nas crianças e jovens que ouvem a sua música na hora de escrever.  A resposta dele foi ótima! Ele escreveu que ele não escreve música para o filho dela ou para a avó dela, mas para ele mesmo e  que ele vai escrever sobre o que quiser. Depois ele fala que gente como ela é agressiva e ofensiva e que ele fica feliz por saber que ela não vai mais comprar os seus álbuns E conclui, dizendo “esta é a diferença entre nós. Eu faço o que eu quero. Você faz o que os outros mandam você fazer”.  . Hehe .. adoro um bafo! No post tem as duas cartas. 

Green Day


Por último, vou falar da carta que a mulher de Aldous Huxley escreveu para Julian, seu irmão mais velho. Nela, ela fala detalhadamente (a carta é beeeem longa) sobre os últimos dias do famoso escritor que estava sofrendo com o câncer. Lendo a carta, percebemos a intimidade e o amor que eles tinham. E como foi difícil para ela ser forte e racionalizar todo o processo de morte dele. Muito legal o momento que ela como, mesmo nas últimas semanas e tendo piorado muito, Huxley se negava a pensar e a discutir sobre a morte. Sempre falava da vida, de planos futuros. “Mais tarde eu faço” é uma frase que ele passou a dizer cada vez mais. E ela, com muito amor, percebeu que era o sinal de que ele não conseguia mais fazer o que lhe era pedido e, ao invés de admitir a fraqueza, fingia querer postergar a ação. O mais tocante da carta é quando ela descreve as horas finais de vida do escritor, quando ela ficou acalmando-o, falando que ele iria encontrar somente amor, que seria muito feliz e que podia ir sem medo. Muito fofo justamente por mostrar um amor tão tocante entre eles.Veja aqui! Mas aviso: a carta é longaaaa!

A famosa foto de Aldous Hukley

Aproveitando: vale a pena ler o post que escrevi sobre "Admirável Mundo Novo" aqui no blog. O livro é incrível e super recomendo a todos!

Amei o blog e resolvi que vou lê-lo com paciência, como se fosse um bom livro de contos. E também me fez pensar em como perdemos o hábito de escrever cartas, não?! Não precisa nem ser à mão, pode ser por e-mail mesmo.. mas quantos e-mails realmente escrevemos, com textos semelhantes às antigas cartas que escrevíamos às pessoas queridas, contando nossas novidades e compartilhando os nossos sentimentos?  Este é, com certeza, um hábito do “mundo antigo” que vale a pena manter...O que você acha? Comenta aqui no blog..

Infelizmente o blog é em inglês e o conteúdo só é disponível para quem entende o idioma.. mas, mesmo assim, quem puder acesse. E leia com calma. Como se as cartas fossem para você!

2 comentários:

  1. Num passado remoto, escrevi muitas cartas. Tantas que encheram um baú. Mas soube que foram todas queimadas, graças a Deus! Acho que eu ficaria morrendo de vergonha se as lesse hoje. Mas adorei esse post, principalmente porque me deu muita vontade de ler essas cartas todas. Infelizmente, com esse meu inglês ruim, ficarei só na vontade.

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    1. É legal ver cartas antigas.. dá vergonha mas é legal.. um sentimento bom de nostalgia.. e acho que você consegue se virar bem sim, lendo o site.. tenta lá! Bjs

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