31 de outubro de 2012

Admirável Mundo Novo é um livro admirável!


Confesso que li “Admirável Mundo Novo” com um pouco de resistência. Achei que fosse encontrar uma história batida, com cara de passada, afinal, tudo o que sabia do livro era que contava sobre um mundo no futuro onde tudo era previamente planejado e programado, todos eram felizes mas que, para chegarem a este estado, as pessoas eram totalmente controladas pelo governo.

Capa do livro


Não que esteja errado. É basicamente isto mesmo. Mas “Admirável Mundo Novo” é muito mais do que só isto. É um livro inteligente e muito interessante. Ao apresentar um mundo tão planejado e controlado, Huxley encontrou uma forma criativa de discutir a dificuldade que as pessoas têm de lidar com a liberdade. Ele parte de um raciocínio simples (e até lógico): se todos querem ser felizes, por que não construir um mundo em que ser feliz aconteça de maneira automática? Assim, basta seguir regras simples e as pessoas terão tudo aquilo que desejam e podem desejar: dinheiro, roupas, satisfação profissional, sexo.

Mas, para conseguir isto, as pessoas não podem escolher o caminho que quiserem, afinal, se cada um quer ser feliz de um jeito particular, não é possível que todos sejam felizes. Apenas alguns. A solução é excluir a liberdade das pessoas para buscar caminhos diferentes e anular o sentimento de individualidade, uma vez que sem a percepção de si, as pessoas passam automaticamente a desejar aquilo que é projetado para ser desejado por todos.

Montagem sobre o SOMA, artifício químico que as pessoas consomem no livro


É claro que fazer isto não é uma tarefa fácil. É algo que requer tempo e muito, mas muito, controle: as pessoas não podem ter família ou pares românticos, afinal, não devem identificar ninguém (e nem serem identificados) como uma pessoa especial, insubstituível. Todos devem ser iguais e substituíveis. Não podem se questionar sobre o que desejam. Devem apenas aceitar que o que está programado para elas é o que elas realmente desejam. Sem questionamentos, sofrimentos ou dúvidas. Para chegar a este tipo de comportamento é preciso condicionamento mental. Feito desde o berço e mantido por toda a vida adulta. Além disto, como todas as pessoas são diferentes (a variação de códigos genéticos é imensa), porque não agrupar os indivíduos por tipos físicos e programar as funções que cada grupo desempenhará na sociedade? Assim ninguém fica insatisfeito com o que fazem (em relação aos outros) pois as próprias limitações físicas explicam e justificam a diferença de posição na sociedade. Tudo em nome de se conseguir uma vida “civilizada”.

Tudo muito lógico e racional. Mas isto não é suficiente para conter as inúmeras oitavas que as necessidades, desejos e percepções humanas possuem. Huxley introduz um personagem “selvagem” na história que, nada mais é do que uma criança que cresceu fora do mundo de condicionamento a que todos estavam habituados. A forma como este “selvagem” encara a chamada “vida perfeita”, da sociedade ideal onde todos podem ser felizes mostra, ponto a ponto, tudo o que se perde para ter uma vida programada, cheia de regras e “feliz”: o amor, os pais, as relações, os desejos, as dúvidas. Tudo isto é mostrado de uma maneira tão genial por Huxley que, no fim do livro, percebemos que todas as angústias, dúvidas e incertezas que nos atormentam e nos fazem sofrer em nossas vidas particulares nada mais são do que bênçãos que nos levam ao nosso caminho pessoal para a felicidade. Isto no mundo real, tanto no presente, como no passado e como será no futuro. Por mostrar isto de uma maneira tão particular e criativa, afirmo sim que este é um livro ADMIRÁVEL!

Olha que legal este vídeo que achei no You Tube com o Huxley em pessoa falando sobre o livro e sobre o perigo que ele via em isto se tornar realidade um dia:




5 comentários:

  1. Impressionante é seu poder de síntese. Excelente texto, Fábio. Admirável!

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  2. Incrível! Li esse livro há uns anos atrás e ficava pensando como as pessoas haviam permitido que a situação chegasse em tal ponto, fiquei chocada com esse futuro controlado mas "feliz". Sua síntese me fez recordar o livro inteiro em segundos e adorei o ponto final em que vc fala das angustias, dos desafios e que são as verdadeiras bençãos na nossa busca da felicidade...ótimo post! (tb adorei a capa que vc escolhei para ilustrar)

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  3. Hey, btw, adorei o facelift no site, ficou super organizado! Tambem gostei que vc diminuiu a imagen no head, confesso que me incomodava um pouco ter que fazer um scroll down para comecar a ler um novo post. Seus leitores agradecem rs! Parabens!

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    1. Eee... brigado Cami!! Qdo vc vem pro Brasil? Bj

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