2 de agosto de 2012

"On The Road" inspira o mundo da moda

O livro "On The Road" de Jack Kerouac sempre é usado como referência no mundo da moda, principalmente por ter sido o mais importante da Beat Generation. Neste último mês o tema voltou à moda e está em diversas revistas, sites e marcas de todo o mundo. Isto porque foi lançado o filme "Na Estrada" baseado no livro, dirigido por Walter Salles. O diretor brasileiro conseguiu finalizar um projeto já iniciado diversas vezes no passado por outros diretores (um deles Coppola) que, por diversos motivos, não conseguiram finalizar a versão cinematográfica do tão aclamado livro.

Atores do fime Na Estrada "On The Road" 

Atores do fime Na Estrada "On The Road" 


Eu não li o livro mas vi o filme de Salles e consegui descobrir a dificuldade de transportar a história para um roteiro que pudesse ser contado em um filme. Primeiro porque é difícil mostrar a transgressão do livro na época, já que na época em que foi escrito e hoje há uma diferença enorme do que é considerado transgressor. A história se passa logo após a segunda guerra. Para se ter uma ideia, é antes de Elvis, Marlon Brando, James Dean. Naquela época, só de não se casar e constituir família até os 25 anos você já era considerado transgressor das regras da sociedade. Imagine, então, o que significava sair viajando pelos EUA, conhecendo pessoas estranhas, explorando sua sexualidade e se aventurar no mundo das drogas. O que hoje parece um Trainspotting light na época era muito diferente, ousado e chocante. Acredito, contudo, que a maior dificuldade é que,  pelo que parece no filme, o livro não constrói os personagens e foca nas aventuras que acontecem uma atrás da outra que, na verdade, não tinham nenhum relação e significado a não ser a atitude de "curtir a vida".

Foto Editorial "On The Road" da Another Man

Tanto que a frase mais famosa do livro: “the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars.” (algo como: "as únicas pessoas que valem para mim são as malucas, aquelas que são loucas para viver, para falar, para serem salvas, que desejam tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem coisas senso-comum, mas que queimam, queimam, queimam como fabulosas velas amarelas que explorem como estrelas") mostra que o livro fala somente de pessoas que ficam (ou buscam ficar) loucas o tempo todo, uma história parecida com a contada pelo filme "Diário de Um Jornalista Bêbado" onde Johnny Depp vive um jornalista que fica bêbado o tempo todo e passa por diversas situações "loucas". O filme, apesar da ótima atuação de Depp, é um horror de chato e totalmente sem graça, simplesmente por não ter história, ser superficial e sem nenhum sentido. Assim, o risco de acontecer a mesma coisa com "On The Road" era grande. Mas não foi isto que aconteceu.

Foto Editorial "On The Road" da Another Man

Foto Editorial "On The Road" da Another Man


Graças à direção sensível de Walter Salles, as personagens ganharam toques sensíveis que mostravam como eles lidavam com aquele espírito "louco" e "transgressor" e como tentavam incluir este espírito nas suas vidas normais. O legal é que ele mostra isto de uma forma muito sutil: Sal, o personagem principal, admira e tenta durante todo o filme incorporar este espírito e não consegue. E, quando percebe que não é possível, abraça a sua vida convencional e, no final do filme, literalmente dá as costas a este espírito, 100% personificado no personagem Dean. Ele, ao contrário, tenta se adaptar a uma vida normal durante todo o filme e não consegue acalmar o espírito e aceitar uma vida convencional. O interessante do filme (e acho que isto é o toque de Salles para a história e que permitiu que o filme fosse finalizado) é mostrar o quão difícil é lidar com a frustração de não conseguirmos ter uma "chama" que fica acesa o tempo todo, buscando novidades e aventuras e que, por mais que seja convencional e chata, a rotina é necessária para construir histórias e vidas.

Foto lookbook Toolstoy - crédito: Shinji Nagabe


Este espírito, contudo, sempre fascinou o mundo da moda, principalmente de quem trabalha com jeanswear (já que só o fato de usar jeans na época do Beat Generation era uma transgressão) e mais do que nunca On The Road "está na moda". Tanto que serviu de inspiração para o catálogo da marca masculina Toolstoy que usaram e abusaram dos xadrezes, sarjas e jeans em sua última coleção clicada pelo fotógrafo Shinji Nagabe. As roupas da marca são superlegais e sou fã. Vejam a página deles no Facebook clicando aqui.  Já a super conceituada revista Another Man usou este espírito de liberdade para criar editoriais incríveis com combinações superousadas, misturando estampas de todos os tipos. É, pode ser difícil conviver com tanta liberdade e aventura, mas elas são realmente inspiradoras!

Foto lookbook Toolstoy - crédito: Shinji Nagabe

As fotos da Another Man e da Toolstoy estão espalhadas por todo o post.

Um comentário:

  1. Muito bom! Também gostei bastante do filme, nem tanto na hora, mas no outro dia, principalmente. É o tipo do filme que precisa ser decantado na alma. E sua crítica, Fábio, me pareceu precisa, inteligente, sensível! Parabéns! Licurgo.

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