24 de fevereiro de 2012

Engraçadinha, 17 anos depois parece mais moderna do que nunca

Há umas 2 semanas, comprei em uma das bancas da Paulista os 3 DVD's da minissérie Engraçadinha por apenas R$ 15. Eu lembro que gostei muito da série mas não lembrava direito de toda a história. O que é compreensível dado que a série foi ao ar em 1995. Bom, comprei o box e aproveitei os dias "off" do Carnaval para assistir e fiquei maravilhado com a qualidade da produção.

Logicamente, como foi gravado em 1995, a qualidade do vídeo não é lá essas coisas, mas tanto a direção como a adaptação do texto para a TV foram primorosas. Assim como o desempenho dos atores da série. Basta apenas lembrar que três grandes atores passaram a ficar conhecidos após Engraçadinha: Alessandra Negrini e Alexandre Borges, que tinham feito papéis pequenos em outras novelas "estouraram" após a minissérie e Carmo Dalla Vechia fez sua estreia na televisão. Claudia Raia e Maria Luisa Mendonça também tiveram atuações incríveis.

O interessante foi assistir aos DVD's sem interrupções. Não há divisão de capítulos e, assistindo às quase 10 horas de vídeo, tem-se a sensação de estar literalmente lendo Nelson Rodrigues. E o seu texto é muito bom, principalmente se considerarmos que ele foi escrito nos anos 60. Muita gente não gosta do estilo dele por ser muito polêmico e querer chocar com suas histórias e frases, mas, ao assistir Engraçadinha, pode-se perceber que as personagens são extremamente humanas e que - exatamente por ele as mostrar exatamente assim humanas - ele as torna próximas de todos e acaba sendo muito real ao mostrar como seria a vida "sem a covardia habitual", como ele provavelmente diria.

Agora o que me deixou impressionado foi lembrar como as coisas eram mostradas sem o pudor que existe na TV atualmente. Os textos e as cenas de Engraçadinha dificilmente seriam aprovadas pela própria Rede Globo se a minissérie fosse gravada agora. As cenas de sexo entre Claudia Raia e Alexandre Borges provavelmente seriam editadas e não apareciam de maneira tão crua e direta como apareceram na série. Acho que até as cenas da Engraçadinha nova, quando ela atiçava o seu amante sem nenhum pudor, seriam editadas e apareciam de maneira mais sútil.

Abaixo pode-se ver uma das cenas que, provavelmente, seria editada:




Agora o que, com certeza, seria mostrado de forma diferente (podendo até ser radicalmente reduzido na série) é toda a história do amor de Letícia (Maria Luiza Mendonça) por Engraçadinha (Alessandra Negrini e Claudia Raia), afinal, o amor e o relacionamento gay se transformou num grande tabu da televisão brasileira.

Mas a cena e o texto são interessantíssimos: ao se declarar, Letícia agarra Engraçadinha e lhe dá um beijo na boca. Engraçadinha fica com nojo de Letícia e diz que ela tem uma Tara. Letícia se revolta e fala para ela que é amor e não tara e que o seu amor é o maior que ela encontraria em toda a sua vida:  "Meu amor é anormal porque é sem vergonha, sem covardia e sem limites" e depois diz que "O meu amor é muito maior que o seu. Eu faria tudo por ti. Tudo, ouviu? E você? O que faria pelo seu amante? Largaria tudo por ele? Largaria a sua família? Fugiria daqui? Com o seu amor normal? Não... Não... É este o seu amor normal? Eu faria tudo por ti. Se me pedisse, eu morria agora com você. Fugiria para onde quisesse, abandonaria tudo! Eu, se fosse você, teria vergonha desse seu amor normal."

Vale a pena ver esta cena:





E tem até uma parte fofa onde ela lembra delas crianças, brincando de marido e mulher. É fofo ver a menina de chapéu, olhando para a outra com cara de apaixonada:



Em toda a minissérie existem diversas histórias interessantíssimas e com muitos personagens ricos, cada um com um lado psicológico muito marcante e com histórias extremamente humanas e próximas de todos nós. E, durante todo o texto, podemos identificar frases geniais de Nelson Rodrigues, como a do juiz que é completamente apaixonado por Engraçadinha e que faz tudo por ela mas, um dia, o filho de Engraçadinha reage e lhe dá um tapa na cara, humilhando-o. De porre, ele diz a um amigo que estava arrasado pela humilhação. E conta que fez de tudo para subir na vida, que chegou de uma cidade pequena que ninguém conhece e que "só virei juiz porque eu nunca me ofendi. O segredo de tudo na vida é não se ofender. Nunca se ofenda. Hoje, pela primeira vez na vida, eu me ofendi. E me sinto derrotado". Interessante, não?!

A única coisa que me deixa triste é perceber que uma série gravada há 17 anos pode ser muito ousada para os dias atuais. Acho que estamos vivendo em um mundo cada vez mais conservador, com uma mídia cada vez mais careta. Em uma entrevista para a revista OUT, Alexander Skarsgard (o vampiro lindo Eric do True Blood) disse que não consegue entender porque os americanos não aceitam uma cena de nú na TV mas assistem numa boa as pessoas humilhando ou batendo em outras pessoas. Ele diz (e eu concordo plenamente) que estas cenas de violência são muito mais pesadas para qualquer criança ou adulto e que este puritanismo americano com o sexo não tem o menor sentido.

Sinto que, infelizmente, seguimos pelo mesmo caminho. Afinal, acredito que em Fina Estampa deva ter uma cena comprida e super divulgada da surra tão esperada pelo público de Griselda em Tereza Cristina mas, com certeza, não teremos nenhum beijo gay, não é verdade?

Bom, o que me consola é que tudo já foi muito diferente e está acessível por apenas R$ 15. Um investimento que, com certeza, vale a pena.

Um comentário:

  1. Demais esse post sobre Engraçadinha. Fiquei até com vontade de rever a minissérie. E de reler Nélson Rodrigues agora que estamos no seu centenário. Parabéns, Fábio. Bjo, Licurgo.

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