24 de maio de 2011

A Elegância do Ouriço



No meu aniversário (que é no dia mais lindo do ano - 17 de janeiro) ganhei da Helen o livro "A Elegância do Ouriço". Nunca tinha ouvido nada sobre ele e resolvi ler assim que possível para satisfazer a minha curiosidade.

Sempre acho bom quando não tenho nenhuma referência sobre o filme ou livro que vou ler, afinal, tudo acaba sendo uma descoberta. Neste caso, posso dizer que foi ótimo.

O livro é muito fácil de ler. A história é interessante e nos faz pensar sobre diversos assuntos em nossas vidas. Não é perfeito, é verdade. O meio do livro é um pouco irritante porque a história fica um pouco forçada e difícil de acreditar mas o final do livro compensa todas as falhas do meio. O início é, também, muito bom.

O livro conta a história de duas pessoas em um prédio de alto padrão em Paris. Neste prédio, a zeladora é uma mulher de meia idade que trabalho no prédio há quase 30 anos e esconde um segredo de todos os moradores. Ela é apaixonada por literatura e filosofia. Parece algo bobo para se esconder mas, segundo a personagem, isto não correspondia à expectativa dos moradores do prédio, o que poderia lhe causar transtornos. Assim, ela assume como missão se passar por ignorante e esconder de todos do prédio os livros que lê e os filmes que assiste todas as tardes.

Mesmo que seja um pouco estranho, o argumento até que é razoável. E por esta personagem a autora Muriel Barbery apresenta o resumo de obras de diversos autores e pensamento de diversos filósofos.

O interessante é que ela só se mostrava como era para o marido (que já era falecido e aparecia na história em cenas de flashback) e para uma amiga, empregada de uma das casas do prédio. E ambos não tinham o mesmo gosto intelectual mas compreendiam os motivos pelos quais ela se entregava às obras artísticas. Nestes momentos em que falava de seus relacionamentos com estas pessoas é que o texto do livro se tornava especialmente bonito. Vou transcrever um parágrafo do texto onde ela fala que tinha uma rotina de toda semana ir ao cinema com o marido mas que ficou muito tempo sem fazer isto porque o marido ficou muito doente e não podia mais sair de casa. Mas um dia, ela lembra de chegar em casa e ver o seu marido Lucien pronto para sair:

".. encontrei Lucien vestido, pronto para sair. Tinha até posto a echarpe e, de pé, me esperava. Depois das perambulações cansadas de um marido cujo trajeto do quarto à cozinha esvaziava de todas as forças e subvergia numa pavorosa palidez, depois de semanas não o vendo mais tirar o pijama que parecia o próprio traje da morte, descobri-lo de olhos brilhantes e ar travesso, com a gola do mantô de inverno levantada até as bochechas estranhamente rosadas, quase me fez desmaiar.
'Lucien' exclamei, e ia fazer o gesto de ir segurá-lo, sentá-lo, despi-lo e sei lá mais o quê, tudo o que a doença me ensinara sobre os gestos desconhecidos e que, ultimamente, haviam se tornado os únicos que eu sabia fazer, ia largar minha sacola de compras, abraçá-lo, apertá-lo contra mim, carregá-lo e todas essas coisas, quando , de fôlego curto, e tendo no coração uma estranha sensação de dilatação, parei.
'Está em cima da hora' me disse Lucien., 'a sessão é a uma da tarde'.
No calor da sala, à beira das lágrimas, feliz como eu nunca tinha sido, segurei sua mão, tépida pela primeira vez depois de meses. Sabia que um inesperado afluxo de energia o levantara da caa, lhe dera a força de se vestir, a sede de sair, o desejo de dividirmos mais uma vez esse prazer conjugal, e também sabia que era o sinal de que restava pouco tempo, o estado de graça que precede o fim, mas isso não me importava, e eu queria apenas aproveitar aqueles instantes roubados do jugo da doença, sua mão quentinha dentro da minha e as vibrações de prazer que nos percorriam, a nós dois, dando graças aos céus, pois era um filme que podíamos saborear juntos."

Muriel Barbery, autora do livro



A outra pessoa é uma menina de 12 anos que mora em um dos apartamentos do prédio. Caçula de uma família rica, ela é extremamente inteligente e culta para sua idade e está entediada com a vida. Tanto que faz questão de esconder sua inteligência da família para não criar alardes. É fácil perceber este ponto comum entre as duas personagens, mas as histórias se cruzam no segunda parte do livro e pode-se perceber que isto é irrelevante, o que achei ótimo, pois seria um argumento muito bobinho e sem graça.

Esta personagem eu já achei um pouco forçada. Se ela fosse um pouco mais velha, talvez fosse mais real mas isto não prejudica a mensagem que a história passa. Ela está a alguns meses de completar 13 anos e muito entediada com a vida. Acha que sabe tudo o que vai acontecer com ela, que a sua vida será óbvia e sem surpresas. Tanto que resolveu escrever um diário de "Pensamentos Profundos" onde ela procuraria encontrar um motivo para viver e que se não encontrasse até o seu aniversário, iria dar fim a sua vida.

Bem dramático, né?! Mas exagerado como todo pensamento de adolescente.. aqui a autora foi bem coerente com a idade da personagem.. De qualquer forma, o que vale aqui é ler os pensamentos profundos que ela escreve. O conteúdo dos textos e os argumentos que ela usa são ótimos e muito interessantes pois discutem pontos importantes como o valor do arte, o sentido da vida, a percepção de si mesmo, as expectativas de si mesmo e dos outros sobre você, entre outros. Abaixo, coloco uma parte de um dos pensamentos:

"... Viver, se alimentar, se reproduzir, realizar a tarefa para a qual nascemos e morrer: isso não tem nenhum sentido, é verdade, mas é assim que as coisas são. Essa arrogância dos homens de pensar que podem forçar a natureza, escapar de seu destino de pequenas coisas biológicas.. e essa cegueira que têm para a crueldade ou a violência de suas próprias maneiras de viver, de amar, de se reproduzir e de fazer a guerra a seus semelhantes...
Acho que só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realizá-la o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal. Só assim é que teremos a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte nos pegar. A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras. Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas.; mas nós também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois morrer."

Eu sei que é difícil acreditar que isto possa ser escrito no diário de uma menina de 12 anos.. mas com o passar do livro, fui desencanando desta sensação e curtindo o que está por trás da história. E valeu a pena! Percebi que a autora usou a menina para discutir um pouco de filosofia e a zeladora para mostrar a importância da arte na vida das pessoas.

Recomendo o livro a todos pois é extremamente fácil e gostoso de ler e tem um texto que, no mínimo, nos faz refletir sobre pontos importantes de nossas vidas.

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