13 de outubro de 2010

Twitterature - "The classics are so last century"



Andando na Livraria Cultura neste feriado descobri o livro Twitterature. Nele, os estudantes da universidade de Chicago Alexander Aciman e Emmett Rensin tiveram a criativa e curiosa ideia de recontar dezenas de livros clássicos da literatura em apenas 20 tweets ou menos.

O objetivo, segundo os organizadores, é tornar a literatura mais acessível e com a cara do século XXI. Para isto, convidaram diversos amigos onde cada um escolheu um livro e assumiu uma postura de narrador ou personagem e lançou os tweets contando a história do livro. Logicamente, o resultado é bem divertido e, de uma maneira geral, pode-se perceber que foi feito mais como uma homenagem à literatura como qualquer outra coisa.



O espírito brincalhão do livro pode ser percebido no tom usado nos tweets.. lá vemos, por exemplo, um Hamlet twittando frases como "Gonna try to talk some sense into Mom because boyfriend totally killed Dad" (algo como "vou tentar passar um pouco de bom senso para a minha mãe porque o seu namorado literalmente 'fritou' o papai") ou o vizinho do Gatsby twittando: "This guy knows how to PAAARRRRRTTTTTYYYYY! Quick: Gatsby's house!!! Txt for directions!"("este cara sabe fazer uma feeesssttttaaa! Rápido: casa do Gatsby. Txt para a direção")

O livro é bem divertido e, de uma forma simples, acaba deixando ao menos a curiosidade de se entender melhor a história e, então, recorrer aos clássicos. O livro tem tido uma boa repercussão na mídia e foi lançado em diversos países. Das críticas que vi, gostei tanto da do The Guardian que coloquei no título da postagem: "The classics are so last century"( "os clássicos são tão do século passado!").

É legal perceber como a forma de comunicação atual é muito, mas muito diferente mesmo, da forma clássica. E é um exercício muito interessante tentar fazer isto com algum texto ou livro que você goste.. porque para recontar a história com tweets é preciso entender bem o texto para, então, recontá-lo como se fosse seu.. ou como se você fosse umas das personagens..

Resolvi tentar fazer isto nestes próximos dias.. vou pegar uma das minhas crônicas preferidas "Pequenas Epifanias" do Caio Fernando Abreu e vou colocá-la em formato de tweets na minha conta no Twitter .. Deixo aqui o texto integral desta linda crônica:

Pequenas Epifanias
Caio Fernando Abreu






Dois ou três almoços, uns silêncios.


Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.


Lindo, não?! Eu sempre me emociono com esta crônica...Para quem gostou do livro TWITTERATURE, ele está à venda na Livraria Cultura e custa uns 20 reais.

Um comentário:

  1. Mais bacana ainda é que tem gente por aí escrevendo literatura por tweets, como o @andrelemos, professor de comunicação da UFBA. Tem essa resenha do livro dele, se vc se interessar: http://abreparentese.com/2010/11/re_vira_volta-uma-experiencia-em-twitteratura/

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